O CURIOSO PAÍS BRASIL
Bonfim Salgado
“Na política, nada acontece por acidente.
Se acontece, pode apostar que foi planejado
para ser deste modo.”
(Roosevelt)
Tenho sido teimoso. Mantendo o hábito de plantar-me à frente dos canais de notícias da TV. Para assistir a mixórdia revoltante em que se transformou a política no Brasil. Na verdade, há horas em que a gente até duvida que os homens que elegemos para nos representar e defender nossos interesses, de fato, estejam agindo de maneira tão rasteira, sórdida e hipócrita.
Ontem, perguntaram-me o que achava desse novelo – ou novela? – do chamado “caso Sarney”. Respondi que não tenho nenhuma opinião formada. As únicas coisas que sei, por enquanto, são que as leis precisam – e devem – valer para todos. Para qualquer cidadão que cometer ilícitos, principalmente quando digam respeito à coisa pública. A história dos “Sarneys”, no Maranhão, é bastante conhecida e cheia de fatos políticos questionáveis, para que tenhamos ilusões sobre o modus operandi dos seus integrantes. A mais, o senador José Sarney perdeu a grande chance de descer do bonde, talvez por excessivo gosto do poder. Acostumou-se à ribalta política e aí estão as conseqüências: a exposição pública mal-cheirosa das entranhas e patranhas de filhos e netos, encastelados no Senado da República.
Nesses dias, chamou-me a atenção a sistemática, estranha e muito suspeita forma com que o governo Lula da Silva – fazendo valer um rol de despistamentos e mentiras – tenta manter blindada a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff. Sabe-se que a ex-secretária da Receita Federal, Lina Vieira, teria recebido da ministra “instruções”, pessoais, para apressar os processos dos Sarneys na Receita. Entendendo-se isso como um quase formal pedido para “engavetar” a papelada comprometedora. Dilma negou o encontro, a senhora Lina foi ao Senado, disse que o encontro realizou-se e ficou uma palavra contra a outra.
Hoje, informa-se que demitiu-se o motorista do ministério da Fazenda que levou dona Lina ao palácio do Planalto. O que há? Querem destruir as provas do tal encontro? Isso lembra aquele caso do ex-ministro Antonio Palloci, apanhado em encontros suspeitos na calada da noite e que mandou quebrar o sigilo bancário do caseiro da famosa mansão em São Paulo.
Agora, tudo gira em torno das próximas eleições em 2010. A ex-ministra Marina Silva saiu do amado e idolatrado PT – assim como irá fazer o senador Arns – e firmará mancebia com o Partido Verde. Ciro Gomes afirma não querer nada com candidaturas ao governo de São Paulo. O senador Mercadante, atrás daqueles vistosos bigodes, ameaça também entregar a liderança do PT no Senado.
O presidente Lula, como sempre, deita a dizer bobagens sobre a economia, inclusive a internacional, coisa da qual ele entende tanto quanto nós de bomba atômica.
A impressão que tenho é a de que o Brasil, a cada dia, parece mais uma ópera-bufa, uma pintura com monumentais toques de surrealismo. O país faz doação milionária para ajudar a reconstrução da Faixa de Gaza (Palestina), e milhares de crianças brasileiras, jogadas naqueles rincões de miséria e fome do Nordeste e Norte, estão há cinco meses sem receber merenda escolar decente. Falar nisso, engavetados os processos e denúncias , o presidente do Senado já anunciou que as coisas passam a entrar na normalidade. Ele aposta em nossa proverbial memória curta. Assim como os marqueteiros do governo federal, que tentam mudar a imagem da ministra Dilma Rousseff, mimetizando-a de mãe do PAC para mãe da casa própria. Sim, no Brasil, mais que nunca, os fins políticos mal explicados justificam os meios nebulosos para atingi-los. Dizer mais o quê?
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PREPAREM OS BOLSOS
Francamente, isso parece até brincadeira. O PMDB e o PT, naquelas conhecidas manobras de bastidores, preparam o regresso, triunfante, da famosa CPMF. Desta vez, renovada e disfarçada, a fim de espicaçar, roubar e tosquiar ainda mais os contribuintes brasileiros. Por que não aumentam os impostos sobre os exorbitantes lucros dos bancos privados no Brasil? Por que os ricos continuam dando risadas e os pobres a pagar os maiores impostos, sem direito a comprar comida para subsistir? Bandalheira.
REFORMA POLÍTICA
Até o momento, quem falou de modo mais explícito e claro sobre a propalada – e custosa – reforma política, que se arrasta há anos, foi o senador Garibaldi Alves (PMDB/RN). Sem meias palavras, ele colocou muito bem que as eleições de 2010, ao contrário das expectativas, ainda serão regidas por uma espécie de “reforma política meia-sola”. Puro besteirol. É o que penso. Os legisladores e a justiça eleitoral estão perdendo tempo, tentando censurar a Internet, os Blogs e e-mails, esquecidos das questões mais substantivas da política nacional, por exemplo a fidelidade partidária, a desorganização das legendas e o controle sobre os abusos financeiros nas eleições.
BLÁ-BLÁ-BLÁ VISCOSO
Na terça-feira passada, eis que assisto ao viscoso discurso do deputado federal Ronaldo Caiado, um dos líderes maiores da chamada bancada ruralista no Congresso. Dedo em riste, olhos arregalados, atacava sem piedade o governo Lula e, principalmente, o INCRA. Para ele, é preciso mudar, urgente, os sistema de produção agrícola do país e, se possível, acabar de vez com os assentamentos, diz ele um dos defeitos mais graves da atual administração federal. Ora, creio que a solução não é “acabar ou extinguir”, como querem alguns, o INCRA. O problema é mais sério. E passa também pela reciclagem geral e valorização funcional dos técnicos dessa autarquia, hoje desmotivados com as contantes trocas de ministros da Agricultura e políticas agrárias desencontradas. Por isso, anda aí o MST, barbarizando e invadindo propriedades produtivas. Sem que ninguém tenha moral suficiente para enquadrar esses “terroristas do campo” nas malhas da lei. Aqui, eu perguntaria ao nobilíssimo deputado Caiado: acabar com o INCRA vai resolver o quê, afinal?