A REPÚBLICA DOS INOCENTES
Bonfim Salgado
Rezam as convenções que ninguém deve ser considerado culpado de nada, até que o caso tenha passado nas malhas da justiça e pela sentença de um juiz. Lembrei disso a propósito dessa esteira de escândalos dos últimos dias, notadamente envolvendo figuras, figurinhas e figurões do Senado da República.
De fato, tenho a impressão que nenhum parlamentar sério, competente – e cônscio dos seus deveres éticos e morais – deseja ver o circo pegar fogo e jogar mais lama naquelas vistosas cadeiras azuis do plenário. Se o presidente deles, senador José Sarney (PMDB/AP), foi apanhado no olho do furacão – quando descobriu-se que oito membros de sua parentela estavam nas folhas de pagamento e gozando de doiradas mordomias – o que fazer? A lógica dos fatos indica que isso nunca deveria merecer tanta publicidade, pois não é diferente, nem pior, nem melhor do que as milhares de falcatruas, nomeações e brincadeiras com o dinheiro público que ocorrem, há décadas, nesse país.
O remédio é claro e o receituário conhecido: uma auditoria interna no Senado – feita por instituição independente – um relatório profissional o isento, a fim de que as exonerações e punições respectivas pudessem seguir o curso da lei. Sem o blá-blá-blá corporativo e a perda de tempo de comissões que nada resolvem, apostando na memória curta dos brasileiros. Comissões de fancaria, que findam esgotando a nossa combalida paciência.
Parte da chamada base governista, em comandita e compasso, barganhando o adiamento da CPI da Petrobrás, lançou-se na defesa do senador José Sarney, que preferiu – por quase um mês inteiro – adotar a tática do avestruz, ou seja, esconder a cabeça e deixar à vista o resto do corpo. Sabe-se que Sarney, acossado pelas denúncias de nepotismo e compadrios diversos no Senado e no governo federal, recolheu-se em copas. Inclusive, evitando a imprensa. Como é óbvio, ficou sem condições de presidir a sessão senatorial. Fato que ninguém supunha iria acontecer tão cedo, tisnando indelevelmente de negro a sua farta e conhecida biografia política.
A questão do Senado, é claro, não se resume aos parentes do senador Sarney. Há coisas mais sérias e graves a considerar. A principal delas o papel – até há pouco – exercido pelos senhores Agaciel Maia, ex-administrador geral e Zoghbi, ex-diretor de recursos humanos. O senhor Agaciel, sabe-se desde o início do ano, detinha um poder de fogo financeiro simplesmente terrível, administrando sem controle externo algum três contas bancárias paralelas. Lugar onde encontrou-se a bagatela de R$ 160 bilhões, parte dos quais servia para afagar e resolver “probleminhas” de senadores e outros parlamentares amigos. Sem contar quase 700 atos secretos, nomeações e vantagens diversas de cunho financeiro – desde 1995 – que nunca seguiram o caminho da indispensável e legal publicidade, nem apareceram nas páginas do Diário Oficial. Conforme estabelece a praxe administrativa pertinente.
Mais adiante, divulgou-se que o senhor Agaciel Maia, que tinha até sala secreta no Senado, bunker de onde comandava as jogadas financeiras reveladas, abriu a boca para dizer que recebeu apoio e força da Mesa diretora do Senado, isto é, tinha as costas quentes e sinal verde total. Não admira que, em menos de uma década, tenha virado milionário e poderoso em Brasília, comprado mansão no famoso Lago Sul, imóvel que – imprudente e confiando na impunidade – deixou de declarar ao leão do Imposto de Renda. Assim, numa espécie de ping-pong, Agaciel diz que Zoghbi é o culpado de tudo, Zoghbi responde que o “bandido” é Agaciel.
José Sarney, por seu lado, alegando a inocência dos anjos celestes, jogou sobre o seu contador a culpa de não ter declarado à Justiça Eleitoral a mansão avaliada em R$ 4 milhões, que ocupa na capital federal. Aqui faz-se a oportuna indagação: esse contador trabalhava para um dos homens mais influentes e ricos do país ou fazia a contabilidade do Zé-das-Couves do bairro Buritizal?
A história desses lamentáveis episódios políticos, ainda terá novos desdobramentos. Os governistas trabalham para abreviar as sessões do Senado e entrar logo no recesso do meio de ano, tirando o foco de cima do senador José Sarney que, dizem, anda respirando melhor nos últimos quatro dias. Aliás, perigando voltar a usar descongestionantes nasais.
Ontem, encheram-se os jornais de outra novidade: a Fundação Sarney, no Maranhão, desviou repasses da Petrobrás – e com eles financiou festas e convescotes diversos. Fato que, espero eu, não seja lançado contra a imprensa, saco de pancadas contumaz dos políticos, quando eles – mergulhados até o pescoço nos seus escândalos e bandoleiragens às custas dos contribuintes – se vêem num beco sem saída. José Sarney, infelizmente, dormiu literalmente de touca, acordou tarde e perdeu a hora de saltar calmamente e de cabeça erguida do bonde da história política nacional. Se por vaidade ou ânsia desmedida de poder e mando, não sei, mas que perdeu a hora, perdeu. Tempus fugit, como diziam os romanos.